Biografia de Romão de Matos (1880-1979)

por Carlos Teixeira e Georges Zbyszewski
Texto extraído das Comunicações do Instituto Geológico e Mineiro (1982)


Dos auxiliares de geólogo ou colectores que mais se distinguiram desde o final do século passado, pelo trabalho que efectuaram e pelos qualidades que revelaram, destaca-se a figura de Romão de Matos que ingressou nos Serviços Geológicos de Portugal em 1 de Agosto de 1901 como "praticante de colector".

Nascido no Ribeiro Branco, no Concelho de Torres Novas em 28 de Setembro de 1880, faleceu em 29 de Novembro de 1979 na sua terra natal com a provecta idade de 99 anos.

Era filho de Francisco de Matos e de Maria Eugénia de Sousa Matos.

Em 1906 casou com Mário de Nascimento Gonçalves Matos. O casal teve 5 filhos (3 rapazes e 2 raparigas).

Romão de Matos era sobrinho de outro grande colector, Romão de Sousa que acompanhou Nery Delgado, enquanto que ele trabalhou sobretudo com Paul Choffat. No entanto, serviu, também, com outros geólogos ou engenheiros, como Nery Delgado, António Torres, E. Fleury, C. Freire de Andrade e outros.

Tendo entrado nos Serviços em 1901, foi promovido, a Colector de 2ª classe em 3 de Fevereiro de 1909. Em 4 de Março de 1918 foi promovido a Colector de 1ª classe e em 25 de Fevereiro de 1928 foi nomeado Colector Chefe do Quadro do Pessoal Auxiliar do Corpo de Engenharia de Minas e Serviços Geológicos.

Em virtude das qualidades excepcionais que revelou, foi posteriormente, em 28 de Outubro de 1932, promovido a Conservador do Museu dos Serviços Geológicos.

Além dos Serviços Geológicos, Romão de Matos também esteve ligado temporariamente ao Instituto Superior de Agronomia, Instituto Superior Técnico, Faculdade de Ciências de Lisboa e Estação Agronómica Nacional.

Depois de reformado e ter recolhido à sua casa na Ribeira Branca, Romão de Matos dedicou-se à prospecção de água o que fazia com probidade e conhecimento do assunto.

Embora não seja referido a colaboração de Romão de Matos nos trabalhos publicados por Paul Choffat, sabe-se que este aproveitou grandemente os elementos observados e recolhidos sob a sua orientação por aquele que durante muitos anos foi auxiliar dedicado e de confiança do ilustre geólogo.

De igual modo, sabe-se que as colecções de fósseis e os numerosos cortes geológicos conservados nos arquivos dos Serviços Geológicos de Portugal, relativos ao Mesozóico foram recolhidos por Romão de Matos. Estes elementos são tonto mais valiosos que eram sempre verificados no terreno, e não só, por P. Choffat.

Dentro dos trabalhos efectuados por Romão de Matos, mencionam-se:

1 - Os que dizem respeito à região de Aveiro, relativos ao Cenomaniano, Turoniano e Senoniano.
2 - No região de Figueira do Foz efectuou importantes reconhecimentos de terreno, colheitas de fósseis não só animais como também de vegetais, conforme se pode verificar nos importantes estudos de Paul Choffat sobre esta região.
3 - Na região de Coimbra, foi sobretudo o jurássico e o Triásico que foram objecto de observação.
4 - Na região de Pombal a atenção concentrou-se, em particular, sobre o jurássico do Serra de Sicó e sobre o Cretácico vizinho.
5 - Da mesma maneira, o colector Romão de Matos deve ter colaborado activamente nos estudos de terrenos do Mesozóico das regiões de Leiria, Monte Real, S. Pedro de Muel, Maceira, Alcobaça, Caldas da Rainha, Peniche, Lourinhã, Bombarral e Alenquer.
6 - Na recolha dos elementos sobre o "Lusitaniano", Romão de Matos deve ter tido tarefo importante no observação dos formações jurássicas de Vimeiro, Torres Vedras, Matacães e Montejunto.
7 - Nos arredores de Lisboa, foi igualmente prestimoso a colaboração dado por Romão de Matos no reconhecimento do terreno e, sobretudo, na cartografia. Deles resultou a publicação dos primeiros mapas no escala 1/50 000 dos Arredores de Lisboa: folha 1 - Sintra; folha 2 - Loures; folha 3 - Cascais; folha 4 - Lisboa, iniciadas por Paul Choffat e nos quais Romão de Matos trabalhou. Foram as primeiros folhas publicadas nesta escala e que iniciaram assim a cobertura da cartografia geológica do Pais em escala conveniente.

Também, no mesmo período, publicou-se o mapa de Lisboa na escala de 1/20 000.

Os mapas elaborados e impressos no tempo de Paul Choffat, relativos à região entre o rio Mondego e Leiria e também o das regiões eruptivas a norte do Tejo, foram distribuídos posteriormente à sua morte e foram baseados certamente no colaboração de Romão de Matos. Embora contendo algumas incertezas, representam todavia elementos valiosos para orientação dos trabalhos ulteriores.

Há que recordar, também, o papel desempenhado pelo colector mencionado só ou acompanhado de outros, na cartografia e observação do regido da serra da Arrábida. Cremos, além disto, que Romão de Matos tenho participado também nos reconhecimentos das regiões de Santiago do Cacém e do Algarve no respeitante ao Mesozóico.

Merece acentuar-se o facto de que a cartografia geológica portuguesa está relacionada com diversos auxiliares de geólogos pertencentes à mesma família oriunda da mesmo aldeia, Ribeiro Branco, no Concelho de Torres Novas de onde provém também outros trabalhadores de mesma índole, mas de qualquer modo encaminhados para esto profissão por Romão de Matos.

 

 

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