Biografia do Eng.º Carlos Bento Freire de Andrade (1893-1956)

por O. da Veiga Ferreira
Texto extraído das Comunicações do Instituto Geológico e Mineiro (1957)


Nasceu o Engenheiro Carlos Bento Freire de Andrade a 22 de Dezembro de 1893, filho do lente da Escola Politécnica General Alfredo Augusto Freire de Andrade, que foi também estadista, colonialista, engenheiro de minas e geólogo de grande mérito. O Engenheiro Carlos Freire de Andrade começou os seus estudos no Colégio Militar, onde concluiu o curso liceal, matriculando-se em seguida no Instituto Superior Técnico, em Lisboa. Pouco depois abandonou esta escola superior de engenharia, seguindo para a Inglaterra, afim de ali continuar o curso na especialidade de minas.

Formou-se na Royal School of Mines da Universidade de Londres e em geologia no Royal College of Science do Imperial College of Science and Technology, na mesma Universidade.

Concluídas estas formaturas regressou a Portugal, onde, em 1919, começou a exercer as funções de naturalista da Faculdade de Ciências de Lisboa, cargo que desempenhou com grande zelo e competência até à morte.

Sentindo-se atraído pelo estudo das águas minerais do País relacionou-as simultaneamente com a tectónica e com a geologia das respectivas áreas e, pode dizer-se, a ele deve a hidrologia portuguesa o forte impulso renovador de bases seguras, nos últimos 30 anos.

Os jazigos carboníferos do País, mereceram-lhe especial carinho. O Engenheiro Freire de Andrade, iniciou também em Portugal, seguindo os mesmos métodos, o estudo das formações de carvão, em especial do jazigo de Santa Susana, em Alcácer do Sal.

Além de lúcido Professor no Instituto de Hidrologia, foi um dos mais assíduos e apreciados colaboradores dos Serviços Geológicos.

Em 1922 seguiu para África do Sul como Secretário da Delegação portuguesa incumbida de negociar o convénio, entre a nossa província de Moçambique e a União Sul Africana, sobre a mão de obra indígena. A partir de 1929 passou a fazer parte, como Administrador, da Companhia dos Diamantes de Angola.

Entre 1945 e 1946 realizou, durante oito meses, um estudo geológico na região da Luanda, nos terrenos da concessão da Companhia. Das suas preciosas observações, resultou a descoberta de afloramentos de kimberlite facto que teve importantes repercussões na economia e progresso da província ultramarina de Angola.

Conheci o Engenheiro Carlos Freire de Andrade em Junho de 1944 nas Caldas de Monchique. Por esta altura, como funcionário da Inspecção de Águas da Direcção de Minas e Serviços Geológicos, pouco experiente ainda, fui encarregado de auxiliar o senhor Engenheiro Chefe da Inspecção de Águas nos trabalhos de captação daquelas águas. Daí data o meu encontro com o Engenheiro Carlos Freire de Andrade, o geólogo encarregado do levantamento geológico daquela área e o orientador das respectivas captações.

Desde o início, o Engenheiro Freire de Andrade dispensou-me, sem reservas, toda a gama dos seus vastos conhecimentos, não se furtando a explicações e conselhos sobre os mais variados assuntos técnicos e científicos, excedendo, por vezes, o âmbito dos trabalhos geológicos ou de captação.

Lembro-me, sempre apesar de terem decorridos quase 12 anos do interesse que lhe despertaram as descobertas arqueológicas na área das Termas e arredores. Não menos recordo o dia em que quis acompanhar-me aos monumentos megalíticos da Palmeira, e recordo-o porque foi aí que tive numa mais demorada oportunidade de lhe ouvir conselhos, nunca revelando enfado perante a minha insaciável e juvenil curiosidade. Tenho presente, também, os seus ensinamentos, ao levantar-se a planta geológica da área das nascentes, e os seus constantes cuidados com os pormenores da mesma.

Dos primores desse convívio, de cerca de doze anos, guardo gratas recordações e o privilégio de ter podido contrair relações de amizade com o seu filho, Ruy Freire de Andrade, ao tempo estudante da Faculdade de Ciências de Lisboa e hoje engenheiro de minas e geólogo já conhecido.

O Engenheiro Freire de Andrade foi um geólogo probo e consciente das enormes responsabilidades, numa ciência em que são necessários todos os cuidados e escrúpulos. A leitura dos seus principais trabalhos atesta uma serena e constante conduta de observador honesto, sabedor e cuidadoso. Como homem tudo fez para merecer que o considerássemos um modelo de cidadão. Quer no seio da sua família, quer no meio dos seus subordinados, soube sempre vincar um bom exemplo e uma bondade que lhe era intrínseca. Sempre calmo e afável, escutava atencioso as perguntas dos seus inferiores, esforçando-se por responder-lhes com simplicidade sobre todas as solicitações. Neste aspecto, como em outros, podemos considerá-lo como a encarnação perfeita dum Mestre e verdadeiro homem de ciência nunca escarnecendo de qualquer observação mais puéril ou menos reflectida de um novato, receando sempre tolher-lhe a iniciativa. Redigindo esta despretensiosa nótula, tão singela nas suas palavras, estou certo que ela não corresponde ao muito valor do grande homem que viverá sempre em nossa memória. Resta-me, contudo, a consolação de que em todo o escrito se reflecte, com espontaneidade, quanto lhe sou reconhecido, pois, posso dizê-lo, foi ele quem despertou o meu entusiasmo pelos assuntos geológicos e de investigação.

Com a morte do Engenheiro Carlos Bento Freire de Andrade, perdem as Ciências Geológicas um fervoroso e honesto cultor, e eu, um grande Mestre e Amigo.

 

 

Página Inicial  Pesquisa | Contactos | Bases de Dados Online | SIG Online | Museu Geológico | INETI © 2006  e-Geo - Sistema Nacional de Informação Geocientífica / INETI