Antecedentes históricos
A origem da actividade arqueológica dos Serviços
Geológicos de Portugal, prende-se com a controversa
questão da antiguidade da espécie humana, que em meados
do século XIX constituía uma das principais preocupações
da ciência ocidental. Com efeito, para o esclarecimento
desta questão, era incontornável o contributo da
Geologia, e, em particular, da Estratigrafia e da
Paleontologia.
Assim se compreende a importância que à questão foi
conferida, também em Portugal, por parte dos dois
membros co-directores da Segunda Comissão Geológica
(1857-1868), sob a égide Carlos Ribeiro (1813-1882) e
Pereira da Costa (1808-1888), coadjuvados por J. F. Nery
Delgado (1835-1908). Com a reorganização da antiga
Comissão Geológica, em 1869, apenas sob a direcção de
Carlos Ribeiro, os trabalhos no campo da Arqueologia
pré-histórica prosseguiram, conhecendo o seu ponto mais
alto, a nível de visibilidade pública internacional em
1880, com a realização, em Lisboa, da IX Sessão do
Congresso Internacional de Arqueologia e de Antropologia
Pré-Históricas (Congrès International d´Anthropologie et
d´Archéologie Préhistoriques), em Setembro de 1880.
A notável actividade destes pioneiros, cujos resultados
rapidamente se projectaram a nível internacional, ainda
hoje pode ser comprovada pela observação de muitos dos
materiais arqueológicos então recolhidos ao longo de
toda a segunda metade do século XIX e conservados no
Museu da Instituição.
A diminuição da produção no domínio da Arqueologia
pré-histórica, verificada no final do século XIX,
acentuou-se nas primeiras décadas do século XX, apesar
de esta actividade científica estar salvaguardada na Lei
Orgânica de 1918, que fixou a designação da instituição
em Serviços Geológicos de Portugal, mantida até quase ao
final do século.
LNEG/LGM
Museu Geológico
Rua Academia das Ciências Nº. 19-2º - 1249-280 Lisboa,
Tel : 213463915
http://e-geo.ineti.pt/MuseuGeologico
museugeol@lneg.pt
A partir de 1940, com o ingresso na Instituição de
Georges Zbyszewski (1909-1999) e, mais tarde, de O. da
Veiga Ferreira (1917-1997), a actividade arqueológica no
domínio da Arqueologia pré-histórica ressurgiu,
destacando-se o primeiro no estudo das indústrias
paleolíticas dos terraços fluviais do baixo Tejo e das
praias levantadas do litoral, de início em colaboração
com o eminente pré-historiador francês H. Breuil, que
permaneceu em Portugal entre Junho de 1941 e Novembro de
1942.
Quanto a O. da Veiga Ferreira, a sua extraordinária
actividade conduziu-o à descoberta, no decurso dos
levantamentos geológicos a que procedeu, integrado na
brigada dirigida por G. Zbyszewski, de inúmeras estações
e monumentos pré-históricos, de todas as épocas, que
explorou, em geral recorrendo a colaboração
proporcionada por equipas de trabalho que soube motivar
e orientar, naquela que, informalmente era justamente
designada, nas décadas de 1960 e de 1970, por "escola
arqueológica dos Serviços Geológicos).
Com o afastamento da Instituição, por limite de
idade, em 1979 e em 1986, daqueles dois eminentes
geólogos e pré-historiadores, a Instituição,
debatendo-se já com outros problemas de funcionamento,
viria a abandonar, por falta de meios e de
especialistas, a actividade arqueológica que, desde a
sua fundação, tão relevantes serviços prestou no quadro
do conhecimento do passado pré-histórico do território
português.
Actualmente, para além das notícias explicativas da
Carta Geológica de Portugal à escala de 1/50 000, onde a
arqueologia continua a estar representada, a actividade
da Instituição no âmbito da Arqueologia, limita-se a
apoiar os trabalhos de investigação desenvolvidos no
Museu, o qual continua a ser muito procurado por
especialistas, nacionais e estrangeiros bem como pelos
alunos de vários graus de ensino e pelo público em
geral, mercê das notáveis peças arqueológicas que
integram o seu espólio (incluindo arqueologia mineira do
período romano), a par do interesse museológico que
reveste a própria instalação conservando as
características de um grande museu oitocentista de
História Natural, bem preservado em todos os seus
pormenores.
Observações sobre a colecção exposta
Importa salientar, ainda que sumariamente, alguns
núcleos temáticos que reflectem as áreas científicas a
que os diversos investigadores da Instituição se
dedicaram:
1 - Os "eólitos".
A questão científica do "Homem terciário" foi uma das
que maior visibilidade e celebridade deu à instituição,
mercê dos trabalhos desenvolvidos por Carlos Ribeiro e,
depois, por Nery Delgado. Encontram-se expostas algumas
das peças pretensamente trabalhadas e por eles
recolhidas na bacia terciária do Tejo, em especial na
região de Ota, Alenquer.
2 - O Paleolítico dos arredores de Lisboa.
As primeiras peças desta vasta mancha de estações
paleolíticas, que se desenvolve em torno de Lisboa, hoje
quase completamente desaparecidas, foram recolhidas por
Carlos Ribeiro, na região de Loures (Santo Antão do
Tojal). Mais tarde, as colheitas de Joaquim Fontes na
estação de Casal do Monte, a mais importante deste
complexo conjunto de estações, a que se somaram as
obtidas por H. Breuil e G. Zbyszewski, vieram a
enriquecer as colecções, que se encontram expostas na
íntegra.
2 - As colecções de indústrias de base macrolítica,
paleolíticas e epipaleolíticas.
Mercê do aludido trabalho de colaboração desenvolvido
entre G. Zbyszewski e Henri Breuil, foi possível estudar
sistematicamente os depósitos quaternários do baixo vale
do Tejo, especialmente significativos na região de
Alpiarça, onde se recolheram in situ inúmeros exemplares
de bifaces acheulenses, de belo recorte clássico; da
mesma forma, as cascalheiras que, a altitudes
decrescentes, se escalonam ao longo do litoral da
Estremadura, proporcionaram a recolha de materiais sobre
pequenos seixos de quartzito, de trabalho sumário, com
características próprias, que justificaram a criação do
termo "lusitanien" e micro-lusitanien" para as designar.
As pesquisas foram depois estendidas ao litoral
minhoto, com a recolha de notáveis materiais fini e
pós-paleolíticos de tipo asturiense, bem como ao litoral
baixo-alentejano, onde se identificaram certos
artefactos específico dessa região, com idêntica
cronologia, como os machados mirenses, nome derivado do
rio Mira, junto de cujo estuário foram pela primeira vez
identificados.
3 - Faunas plistocénicas.
Concomitantemente com a presença humana, certas
estações, tanto de ar livre (como os terraços de Santo
Antão do Tojal ou do rio Cértima, junto a Mealhada)
como, sobretudo, as grutas do Maciço Calcário da
Estremadura, exploradas em diversas épocas, forneceram
inúmeros restos de espécies de grandes mamíferos,
nalguns casos extintas, como o hipopótamo, o elefante, o
rinoceronte e a hiena das cavernas, o leopardo, cujos
exemplares mais representativos se encontram expostos.
Merece destaque o notável conjunto faunístico recolhido
por Nery Delgado na gruta da Furninha (Peniche),
escavada em 1879, em parte associados a materiais do
Mustierense e do Solutrense.
4 - Indústrias do Paleolítico Superior.
É escassa a colecção da Instituição. Merecem destaque as
belas peças (pontas de Parpalló) recolhidas no século
XIX por Nery Delgado na gruta da Casa da Moura (Cesareda)
e por Carlos Ribeiro nas grutas do Poço Velho (Cascais),
a que juntaram as obtidas por O. da Veiga Ferreira e J.
Camarate França na gruta das Salemas (Loures), na década
de 1960. Entre estas últimas, salienta-se a existência
de uma bela zagaia afeiçoada em um osso peniano de Urso
(Ursus arctos), além de belas pontas de Parpalló e de
tipo cantábrico ("pointes à cran").
5 - Concheiros mesolíticos de Muge.
Localizados ao longo de ambas as margens das ribeiras de
Magos e de Muge, tributárias da margem esquerda do rio
Tejo, pertencem ao Período Atlântico, situando-se entre
cerca de 6200 e 5100 cal. BC. Correspondem a notáveis
acumulações de conchas estuarinas, indício de que, à
época, as águas salobras atingiam a região, de mistura
com restos faunísticos de mamíferos selvagens.
Salienta-se a presença de enterramentos humanos nas
proprias acumulações de origem antrópica, denotando
rituais funerários rudimentares (uso do ocre vermelho,
em especial), bem como testemunhos de cabanas e de
outras estruturas domésticas (silos), a par de uma
abundante indústria microlítica, representada por
geométricos, onde se destacam os bem conhecidos
"triângulos de Muge", de forma muito estreita e
alongada, com espinha longitudinal bem marcada. Dos mais
de 300 esqueletos recolhidos desde o início das
escavações, em 1863, conserva o Museu alguns em
exposição, a par de muitas outras evidências da
actividade humana ali desenvolvida; tal realidade, faz
do Mesolítico de Muge um dos mais importantes núcleos
conhecidos a nível mundial.
6 - Necrópoles neolíticas em grutas do Maciço
Calcário da Estremadura e áreas limítrofes.
O Museu possui notável acervo de materiais de necrópoles
aproveitando cavidades cársicas naturais existentes no
Maciço Calcário da Estremadura, exploradas em sucessivas
épocas, desde os primórdios da Instituição. Merecem
destaque os espólios das grutas da Nascente do rio
Almonda, com cerâmicas cardiais de tipo clássico. À
actividade dos pioneiros se devem a exploração e a
recolha de materiais neolíticos notáveis, que se
encontram expostos, nas grutas da Casa da Moura (Cesareda),
da Furninha (Peniche), do Carvalhal de Turquel
(Alcobaça), de Ponte da Laje (Oeiras) e do Poço Velho
(Cascais).. Destaca-se a presença de grandes lâminas
foliáceas de sílex (alabardas), de vasos do Neolítico
Antigo e das célebres placas de xisto características do
território português, com decorações geométricas
gravadas, em particular na gruta da Casa da Moura.
7 - Grutas artificiais da Quinta do Anjo (Casal do
Pardo, Palmela).
Trata-se de um conjunto funerário constituído por quatro
hipogeus escavados nas rochas carbonatadas brandas do
Miocénico que localmente afloram, constituindo pequeno
cabeço. Escavadas primeiramente em 1876 por António
Mendes, sob a égide de Carlos Ribeiro, são constituídas
por um átrio, a que se segue um corredor em forma de
saco mais ou menos longo, que comunica com câmaras de
planta circular com tecto abobadado, comunicando com a
superfície por meio de clarabóia.
Estes monumentos tornaram-se internacionalmente
conhecidos após a publicação em 1886 da obra de É.
Cartailhac "Les Âges Préhistoriques de la Péninsule
Ibérique", na qual se publicam alguns dos materiais ali
recolhidos, com destaque para as taças de bordo
espessado e decorado - as taças de tipo Palmela - e para
as pontas de cobre com espigão, que a partir de então
passaram a designar-se internacionalmente por "pontas de
tipo Palmela".
No conjunto, os materiais exumados mostram que a
época de construção destes sepulcros - com paralelos em
outros conjuntos a norte do Tejo, dos quais os mais
célebres são os de Alapraia (Cascais) e de Carenque
(Amadora) - se insere ainda no Neolítico Final,
correspondente aos últimos séculos do IV milénio BC,
conhecendo depois sucessivas reutilizações, no decurso
de todo o milénio seguinte, a que correspondem uma
selecção de materiais expostos.
Uma outra gruta artificial aparentemente isolada foi
explorada por Carlos Ribeiro na Granja do Marquês
(Sintra) e por ele publicada em 1880. Do espólio
exposto, avultam os cilindros de calcário, dos quais um,
de grandes dimensões, análogo aos "baetylos"
calcolíticos funerários do Sudeste espanhol.
8 - Monumentos megalíticos dos arredores de Lisboa.
De alguns dos dólmenes, constituídos por grandes lajes
calcárias, explorados e publicados por Carlos Ribeiro em
1880 (Pedra dos Mouros, Montre Abraão e Estria, entre
outros), bem como os explorados em épocas mais modernas,
como o conjunto megalítico de Trigache (Odivelas) e o
dólmen de Casainhos, já na década de 1960 (por V.
Leisner, O. da Veiga Ferreira e G. Zbyszewski) provêm
belas peças que se encontram expostas. A estes,
juntam-se o espólio do monumento de falsa cúpula do
Monge (tholos), no alto da serra de Sintra, também
explorado por Carlos Ribeiro, bem como o notável
conjunto do monumento complexo da Praia das Maçãs
(Sintra), explorado por V. Leisner, O. da Veiga Ferreira
e G. Zbyszewsli.
9 - Povoados pré-históricos.
Por comparação com os conjuntos funerários, os materiais
oriundos de povoados estão muito escassamente
representados, o que se explica, dadas as limitações
vigentes, que não comportavam explorações de campo
prolongadas. As peças expostas resultaram, em geral, de
recolhas de superfície, o que não impediu que tenham
dado origem a importantes estudos, como o dedicado a
Leceia (Oeiras), descoberto e publicado por Carlos
Ribeiro, em 1878, constituindo a primeira monografia
relativa a um povoado pré-histórico do território
português.
10 - Peças pré-históricas isoladas e outros
monumentos.
Mercê do trabalho incessante dos geólogos/arqueólogos
pioneiros da Comissão Geológica e dos seus sucessores,
resultaram inúmeros achados de peças isoladas, de
recolhas de superfície ou de escavações circunscritas
(especialmente em monumentos dolménicos do Alentejo e
das Beiras), das quais as mais importantes se encontram
expostas. É o caso dos grandes artefactos de pedra
polida, cuja utilização se desconhece, recolhidos perto
de Mafra no século XIX, a que se junta a bela alabarda
de Tipo Carrapatas recolhida perto de Vimioso e
publicada por Nery Delgado, conjuntamente com espólios
funerários pré-históricos recolhidos nas grutas ali
existentes. De Alcaria (Monchique) provém rara navalha
de barbear, do Bronze Final (o primeiro de apenas dois
exemplares conhecidos em território português),
publicada por O. da Veiga Ferreira, A. Viana e J.
Formosinho.
Por último, entre o acervo pré-histórico da Instituição,
merece destaque o espólio exumado no notável monumento
funerário de corredor e falsa cúpula (tholos) da Roça do
Casal do Meio (Sesimbra), correspondente a uma das raras
ocorrências de tumulação pelo ritual da inumação do
Bronze Final, reaproveitando uma tholos calcolítica das
várias existentes na região ou, em alternativa,
recorrendo à construção de um monumento funerário de
raiz, que, deste modo, se afigura único no seu género no
território peninsular.
11 - Arqueologia mineira.
Além das peças encontradas em galeria pré-histórica de
exploração de sílex, cortada aquando da construção do
túnel ferroviário do Rossio e publicadas por P. Choffat
em 1889, é de realçar o notável conjunto de materiais de
época romana provenientes das minas de Aljustrel e de S.
Domingos, como uma alpergata e um gorro de esparto,
artefactos de madeira (maço, escadas) e de ferro
utilizados na mineração. Acima de todas, destaca-se
célebre placa de bronze contendo legislação mineira do
século I d.C. recolhida em 1876 nos escoriais romanos da
mina dos Algares (Aljustrel) e estudada, entre outros,
nesse mesmo ano, pelo grande arqueólogo arqueólogo
algarvio S. P. M. Estácio da Veiga, que a publicou em
1880.
João Luís Cardoso
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